Como o público fala sobre ídolos da música no Twitter?

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Ao olhar para a música pop feita hoje no Brasil, a Gênero e Número , uma plataforma brasileira que aborda questões de gênero a partir de dados, decidiu também analisar as conversas no Twitter sobre alguns dos artistas mais populares no momento. Um levantamento feito pelo Labic (Laboratório de Estudos sobre Imagem e Cibercultura da Universidade Federal do Espírito Santo) a pedido da nossa reportagem colheu as mil palavras mais usadas no Twitter no fim de 2017 em relação a Marília Mendonça, Pabllo Vittar e MC Kevinho. Os três aparecem entre os 10 artistas mais tocados no ano passado nos rankings de YouTube e Spotify, o que indica um forte engajamento de ouvintes e fãs na internet.

O levantamento do Labic varreu essa rede a partir do último dia do ano de 2017 e voltou no tempo em busca dos termos mais associados ao nome de cada artista, até completar mil palavras. No caso de MC Kevinho, esse marco se deu em quatro meses e meio (de 11 de agosto a 31 de dezembro). Pabllo Vittar foi um pouco mais falada na rede: as mil palavras foram completadas no período até 3 de novembro. Já a popularidade de Marília Mendonça no Twitter refletiu seu sucesso como artista mais ouvida no YouTube em 2016 e 2017, somando apenas um mês e meio de tweets para chegar a esse marco (de 15 de novembro a 31 de dezembro).

A primeira conclusão no meio desses tweets todos é: os fãs dos artistas são mais bem ativos que os haters. No período analisado, estiveram rasgando elogios e compartilhando links de sucessos lançados pelos seus ídolos na rede em 2017, como sinalizam as palavras capturadas. Mas jogando a lente de gênero e olhando atentamente já é possível tirar outra conclusão: críticas e ataques relacionados à estética ou à imagem dos artistas ficaram para Marília Mendonça, que não se curva aos padrões de magreza, e para Pabllo, que sacode a discussão acerca de identidade de gênero ao se apresentar com uma persona feminina sem renunciar ao nome masculino. Mc Kevinho, homem heterossexual que personifica o jovem viril, passa ileso, ao menos nesse grupo de mil termos colhidos.    

Entre os três perfis, aliás, o da Pabllo foi o único cuja análise dos mil termos mais citados mostra a existência da palavra “ódio” com certa relevância. Crimes de ódio e violência contra homossexuais são uma realidade na internet, e o levantamento feito permite um alerta para isso.   

A rainha da sofrência

Marília Mendonça é o principal nome do que nos últimos dois anos tem sido chamado de “feminejo”: a explosão de cantoras versando sobre temas recorrentes no sertanejo atual – relacionamentos e noitadas – desde as perspectivas das mulheres. Com 22 anos, ela está no topo dos rankings de YouTube e Spotify e tem quatro canções na lista das 100 mais tocadas nas rádios brasileiras em 2017, compilada pela Crowley Broadcast Analysis.

As mil palavras mais citadas coletadas de tweets com o nome da cantora foram usadas 258 mil vezes, segundo o levantamento do Labic. “Rainha” e “sofrência”, termos que formam sua alcunha, estão entre os que mais aparecem – 1.437 e 1.513 vezes, respectivamente. Mais do que isso, usuários do Twitter parecem gostar de contar para o mundo que estão apreciando as canções da femineja: “ouvindo” (3.994), “música” (2.983), “vídeo” (1.978), “escutando” (1.778), “amo” (1.492) estão entre as dez palavras mais usadas.

O gênero de Marília parece ser um aspecto importante para quem fala sobre a cantora no Twitter: o termo “mulher” é mencionado 1.274 vezes, além das variações “mulherão” (247) e “mulheres” (60). Ela também é bastante relacionada a suas colegas feminejas, como Maiara (1.029), Maraísa (1.102), Simone (687) e Simaria (643), e a colegas e eventuais intérpretes de suas canções como Henrique (890), Juliano (931), Bruno (876) e Marrone (839).

Há também muitas referências ao universo das canções de Marília: “chorar” (898), “amante” (915), “sofrendo” (858), “sofrer” (749), “coração” (852), “traição” (160), “corna” (95), “traída” (55).

Marília não corresponde ao padrão de magreza imposto com especial rigor às mulheres, e alguns usuários do Twitter parecem ter achado necessário pontuar isso: “pesada” (133), “gordinha” (100) e “gorda” (60) aparecem. “Aceita” e “respeita” também, 132 vezes cada.

Quando os usuários mencionam diretamente o perfil da cantora (@MariliaMReal), admiradoras e admiradores se destacam, pois “linda” (3.813 vezes), “amo” (3.673), “amor” (1.873), “rainha” (1.711), “melhor” (1.256) e “maravilhosa” (1.253) são as mais usadas entre as mil palavras, usadas 98 mil vezes.

“Mulher” (1.371), “mulherão” (149), “mulheres” (39) e até “muié” (91) também aparecem. Entre as centenas de “diva” (403), “hino” (376), “feliz” (341) e “top” (290), algumas dezenas de termos pejorativos também se fazem presentes, como “lixo” (97), “ruim” (72) e “merda” (69). “Gordinha” cai para 36 menções – pouco mais do que as 29 feitas a “macho”, termo que só apareceu entre os “replies” à cantora.

 

O  drag é pop

Em 2017, Pabllo Vittar conseguiu uma proeza: levar a arte drag para o horário nobre da TV aberta e para as capas das principais revistas do país. A cantora também emplacou a música com mais plays no YouTube no ano passado – “Sua cara”, com Anitta e o grupo eletrônico Major Lazer, que também entrou no top 10 de canções mais tocadas no Spotify, junto com “K.O.”. Já o álbum “Vai Passar Mal” ficou em oitavo lugar entre os mais executados na plataforma de streaming.

Suas canções de mais sucesso no ano estão entre as palavras mais usadas no Twitter sobre a cantora, com pistas para o compartilhamento do clipe desde o YouTube: “video” (8.610 vezes), “Anitta” (6.092), “gostei” (5.834), “cara” (4.772), “KO” (2.544), “corpo” (1.793), “sensual” (1.982). As mil palavras coletadas pelo Labic foram usadas 334 mil vezes pelos usuários do Twitter.

A “voz” de Pabllo, objeto de controvérsia para parte do público, é citada 1.455 vezes. Figura multifacetada, a cantora aciona diferentes percepções de gênero e sexualidade entre o público, o que aparece nas também muito citadas “drag” (929), “mulher” (888), “bunda” (816), “gay” (788) e “homem” (706). Menos citadas, porém presentes, são “viado” (317), “puta” (283), “pau” (227), “trans” (173), “pinto” (135), “gênero” (130), “macho” (119), “feminino” (116), “bicha” (102).

Perto de “homofobia” (376), “homofóbico” (342) e “preconceito” (331), aparece “Bolsonaro” (314). O nome de Vittar e do deputado federal pelo PSC do Rio de Janeiro se cruzaram no fim de agosto do ano passado, quando hackers invadiram o canal de Pabllo no YouTube e colocaram uma foto de Bolsonaro na imagem de exibição do perfil. Eles também deletaram o clipe de “K.O.” e incluíram dois vídeos com referências à pedofilia. O YouTube posteriormente restaurou o canal de Pabllo, reinserindo o clipe e as visualizações acumuladas até então.

Entre os termos mais presentes nos tweets dos usuários em geral, as palavras que podem ser interpretadas como negativas que mais aparecem são “ruim” (760), “merda” (649), “lixo” (406), “bosta” (258), “ódio” (177), “odeio” (131). As positivas seriam “amo” (915), “gosto” (894), “queen” (381) e “hino” (326).

 

Já quem twitta com menção ao perfil da cantora (@pabllovittar) manifesta bem mais apreço: “amo” é a palavra mais usada (11.645). Entre as 10 primeiras também estão “amor” (6.811), “rainha” (5.421), “linda” (3.888), “maravilhosa” (3.111), e entre as 50 primeiras, “ícone” (2.308), “parabéns” (1.637), “sonho” (1.536), “orgulho” (1.400), “feliz” (1.263) e “diva” (1.137). Nas menções, as mil palavras foram usadas 257 mil vezes no total.

Funk de Campinas para o mundo

Em 2017, MC Kevinho chegou onde muitos artistas gostariam de estar: no player de Madonna. A rainha do pop publicou em outubro do ano passado em seu perfil no Instagram um vídeo que mostra suas duas filhas mais novas, Esther e Stella, dançando e cantando o hit “Olha a explosão”. Quando chegou ao carro de Madonna – cujo nome, aliás, aparece associado 1.033 vezes ao cantor no Twitter na coleta geral do Labic -, a música já estava a caminho de se tornar a segunda mais ouvida no YouTube no Brasil em 2017. Kevinho aparece novamente no ranking no sexto lugar, com “O Grave Bater”, e se consolidou como o segundo artista mais ouvido na plataforma no ano passado e o décimo mais ouvido no Spotify.

Chama a atenção também a presença de palavras em espanhol: “reproducción” (mencionada 817 vezes), “gusto” (627), “añadido” (482), “canción” (168) e até “enamorada” (85). Seis cidades argentinas aparecem entre as que mais deram play nas canções de Kevinho no YouTube em 2017, e somente Buenos Aires teve 23 milhões de visualizações. Quito e Guayaquil, no Equador, somam 22 milhões; Bogotá, na Colômbia, 24 milhões; Montevidéu, no Uruguai, 17 milhões; e Santiago, no Chile, 16 milhões.

Curiosamente, aparecem duas palavras em russo entre as mil coletadas pelo Labic relacionadas ao cantor: “видео” (“vídeo”, 56 vezes) e “добавлено” (“adicionado”, 30), o que indica que canções de Kevinho foram parar em playlists de usuários russos.

 

“Apaixonado” foi o adjetivo mais usado por usuários do Twitter em relação a Kevinho (1.374 vezes). Em geral, quem fala sobre o cantor no Twitter não parece muito interessado em qualificá-lo, já que os adjetivos não são tão proeminentes entre as mil palavras coletadas. “Melhor” (425), “lindo” (301) e “bonito” (112), porém, aparecem bastante, e no espectro negativo, “ruim” (98), “feio” (76) e “chato” (61) se destacam.

Já no levantamento referente às palavras mais usadas nas menções ao perfil de MC Kevinho (@kevinho), novamente fãs parecem ser os que mais se expressam: “amo” (usada 10.046 vezes), “amor” (8.197) e “lindo” (5.773) são as três primeiras entre as mil palavras, usadas 227 mil vezes no total.

O encanto pelo ídolo adolescente aparece também na quantidade de adjetivos positivos e no quanto esses termos aparecem: o Labic encontrou que estes são usados 29 mil vezes em relação ao cantor, que tem 1,12 milhão de seguidores no Twitter. Já Marília Mendonça, com seus 1,35 milhão de seguidores, tem adjetivos usados 14,4 mil vezes nas menções a seu perfil (@MariliaMReal).

 

Este texto foi publicado originalmente no site Gênero e Número  e pertence a jornalista Carolina de Assis, editora da plataforma.

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