Haters gonna Love: as eleições sob o ponto-de-vista de um comunicólogo

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Vote você em candidato A ou B, seja você simpatizante do partido X, Y ou Z, todos temos que concordar em um ponto: as eleições deste ano marcam um novo tempo no processo democrático brasileiro. E o ineditismo nem sempre carrega em si algo de positivo. O fato é que estamos diante de uma corrida eleitoral com ares de corrida maluca, repleta de recursos e subterfúgios que não costumávamos ver nas eleições passadas. Mentiras e verdades, dedos em riste, chuva de cards e vídeos difamatórios de todos os lados. Ao contrário do que muitos pensam, isso não aconteceu apenas por conta da polarização acirrada do eleitorado entre direita ou esquerda, rico ou pobre, vermelho ou azul.

"Ah, mas isso só acontece nas eleições no Brasil. Nos EUA é outro nível". Outra ilusão. Basta procurar pela internet e você achará inúmeros vídeos e cards da campanha de Mitt Rooney atacando e ridicularizando o então candidato Obama e vice-versa.

Acontece que as eleições no Brasil - e em qualquer lugar - sempre foram recheadas de acusações de ambas as partes, muitas delas descambando para o lado pessoal. O que faz com que tudo pareça mais intenso e sensível - muitos dirão até mais agressivo - nas eleições deste ano é a capacidade de disseminação e pertubação epidêmica que as redes sociais propiciam. A diferença agora é que esse embate torna-se muito mais acirrado por conseguir tomar cada segundo do nosso dia, pois acontece no lugar onde passamos 80% do nosso tempo de consumo midiático: a internet e, em grande parte, o Facebook. O que antes se restringia a ser discutido no jornal televisivo noturno, nos debates ou no jornal de papel pela manhã, agora acontece 24/7 em nossos feeds no Facebook. A cada novo segundo, centenas de novos posts exaltando fulano ou difamando sicrano. Um verdadeiro tsunami de informações sem precedente na história da democracia brasileira.

Isso tudo acontece porque hoje cada um de nós é um veículo de mídia. Somos todos testemunhas oculares deste incrível fenômeno de progressão exponencial da relevância e do poder da comunicação em nossas vidas cotidianas. Seja você médico, advogado, técnico em enfermagem, aposentado ou cabeleleiro: todos dispomos do mesmo ferramental de produção e disseminação de conteúdo que, em um passado recente, era exclusividade de alguns veículos de comunicação apenas. De meros receptores passivos passamos a emissores vorazes, como previu Baudrillard em 85.

"Na representação imaginária, as massas flutuam em algum ponto entre a passividade e a espontaneidade selvagem, mas sempre como uma energia potencial, como um estoque de social e de energia social, hoje referente mudo, amanhã protagonista da história, quando elas tomarão a palavra e deixarão de ser a "maioria silenciosa". (BAUDRILLARD, 1985)

Há o lado bom de vermos como a política virou assunto do dia e vem sendo debatida em praça pública, mas há o lado ruim de vermos a quantidade de boatos e atos de má fé ocorrendo de todo lado.

O fato é que todo este processo de efervescência na produção midiática colaborativa, intensificado na última década, fez com que um lado "hater" se desenvolvesse nas pessoas. De certo modo, as pessoas se deliciam em destilar o veneno contra tudo e contra todos. E a internet deixa isso muito mais fácil também. Esse fenômeno costuma ficar claro quando analisamos as métricas de engajamento que evidenciam como as pessoas se mobilizam muito mais para criticar algo do que para elogiar. Toda marca hoje tem que saber lidar com seu grupo particular de haters que está sempre a postos para destacar o lado negativo das coisas. O desafio está em não somente saber lidar mas em avaliar até que ponto aquelas questões evidenciadas procedem ou não e então agir para melhorar o que puder ser melhorado. E há aqueles que até gostam dos haters justamente por serem uma prova de você estar conseguindo mexer com as pessoas. Afirmam que se você tem um grupo de pessoas que odeiam sua marca muito provavelmente há um grupo de pessoas que a amam. Defendem que hoje em dia é melhor tirar as pessoas da passividade e mexer com os sentimentos delas. É melhor inspirar lovers e haters do que passar despercebido, sem gerar e cativar emoção.

Enfim, não podemos nos iludir em acreditar que tudo isso que vem acontecendo nessas eleições é algo fora do normal, que só acontece no Brasil ou que é por conta dos ânimos contrários apenas. São sinais do nosso tempo. E tudo tende a se tornar ainda mais acirrado no futuro. Torço para que saibamos manter a paz interior e exterior. E que possamos analisar tudo isso com um olhar mais técnico e correto, como comunicólogos que somos. E também que não desistamos de defender a ética na produção e disseminação de conteúdos, de todos os lados, por todas as pessoas.

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