A TV que a gente paga para ver

A TV por assinatura no Brasil chegou com muitas perspectivas, seguidas de muitas frustrações. Em curtíssimo prazo já veríamos que não éramos a Argentina, país onde a TV paga alcançava mais de 60% de penetração entre os consumidores, enquanto a gente aqui estava apenas começando. Nossos 60% não chegaram até hoje, mas até que o diagnóstico por isso veio acompanhado de uma notícia boa: o brasileiro não via tanta vantagem assim em pagar para ver produções de nível similar ao de sua TV aberta, nicho que, no país vizinho, não era lá grande coisa e acabava por incentivar a assinatura de um serviço à parte. Resumo da ópera: descobrimos que o Brasil fazia uma boa televisão.

Pelo menos três gerações de um terço da nação já cresceram sem saber o que é TV fechada e o que é TV aberta.

Mas, como todo item aparentemente de luxo de que jamais necessitamos para viver, a TV paga, uma vez adquirida, revelaria que a vida sem ela seria muito mais chata. Em princípio, a imagem aparecia como grande vantagem. Em médio prazo, as produções foram se mostrando também um ganho para o cardápio de nossas escolhas. Veio a internet discada, a banda larga, o DVR (que grava nossos programas prediletos para vermos quando for possível) e a TV sob demanda, que depois se estendeu a um serviço everywhere, para ser vista por streaming de onde o assinante quiser. A cada upgrade alcançado por esta assinatura que naquele início se mostrava quase dispensável, perguntaríamos, de novo e de novo: “como eu pude viver sem isso até hoje?”

Pelo menos três gerações de um terço da nação já cresceram sem saber o que é TV fechada e o que é TV aberta. No zapping de quase duzentos canais, não há fronteiras entre eles. Salta-se da Globo para a Discovery Kids, Cartoon e quem sabe uma MTV ou Nat Geo, para nunca mais esgotar suas escolhas entre seis ou sete canais, como as gerações anteriores.

Essa sensação foi endossada pela chegada da lei da TV paga, que criou mecanismos para ampliar o volume de produção nacional, com cotas que abrangem três horas e meia de cenas brasileiras por semana em horário nobre. É tudo meio Brasil meio importado, muito próximo do que acontece nos canais abertos.

O registro de obras publicitárias brasileiras para TV Paga também cresceu.

O volume de obras brasileiras independentes registradas na Agência Nacional de Cinema, a Ancine, que supervisiona as cotas de produção nacional e aprova projetos para receberem verba de incentivo na TV e no cinema – parte dela, independente - passou de uma média anual de 522 obras (entre 2010 e 2012) para 1.939 obras (de 2013 a 2015), representando um crescimento de 271%. Do montante desse conteúdo, 62% da produção inédita produzida em 2015 e 2016 se encontra licenciada para TV paga. Da produção já licenciada, 68% já estreou nos canais por assinatura.

O registro de obras publicitárias brasileiras para TV Paga também cresceu.  Em 2016, as obras publicitárias brasileiras passaram a corresponder a 87% das peças de publicidade veiculadas na TV por assinatura.

As cotas de programação nacional estabelecidas pela Lei 12.485 não só vêm sendo cumpridas, como superadas em muitos canais. Segundo Manoel Rangel, que acompanhou toda a elaboração e aprimoramento da lei e agora deixa a presidência da Ancine, em 2015, os Canais de Espaço Qualificado exibiram, em média, 53% mais conteúdo brasileiro no horário nobre que o estipulado na lei. No caso dos canais dedicados ao público infantil, o volume é ainda maior, alcançando 92,4% a mais de obras brasileiras.

Bingo. A exigência de cotas de produção nacional, algo que no início enfrentou resistência de muitos canais estrangeiros, viria a se mostrar um grande atrativo para a audiência, que também acelerou de 2010 para cá.

Convém notar que embora as assinaturas tenham avançado até quase 20 milhões, a TV paga perdeu mais de 1 milhão de clientes nos últimos dois anos, fruto da crise econômica, sem que isso se refletisse na audiência dos canais pagos, que só cresce.

Cristina Padiglione é titular do site TelePadi e se dedica à cobertura de assuntos sobre a TV há 27 anos.

Deixe seu comentário: