VIDCON 2018: Tem um unicórnio no meio da sala

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Snapchat produz série original como o YouTube, que tem a aba Comunidade que lembra o feed do Facebook, que aprimora o vídeo ao vivo compartilhado como o Twitch, que possui um feed personalizado que parece o Twitter, que no Moments passou a ter vídeos na vertical como o Instagram, que, aliás, anuncia o IGTV que tem vídeos longos como o YouTube, que também lança o Stories como o Instagram, que engoliu ou seguiu os passos do Snapchat, que trouxe vídeos em poucos segundos como o Vine, que não existe mais.

“Aliás, por que o Vine acabou mesmo? Muita gente perdeu seus fãs do dia para noite. Não dá para ficar dependente de nenhuma plataforma”, disse a influenciadora Hannah Hart na Vidcon, um dos principais eventos mundiais de cultura digital. Lugar em que você anda sempre cercado por câmeras e celulares de jovens produtores de conteúdo – ansiosos para botar a voz no mundo – repleto de fãs em frenesi pela proximidade com ídolos não tão mais velhos que eles. Ao mesmo tempo em que as empresas, entre palestras, lançamentos e conversas de corredor, buscam entender os desejos e anseios das gerações mais novas, sejam elas Millennials, Z, Y ou de qualquer outro rótulo comportamental de tempo e espaço.

“Nós temos agora os prosummers”, disse a pesquisadora Jéssica Taylor, frisando para quem ainda não entendeu que o novo consumidor também quer produzir conteúdo. “Não é à toa que um jogo como Minecraft, onde você pode criar o seu estilo de jogo, faz sucesso. Eles podem ser quem eles quiserem!”, comenta. Um mundo aberto, conhecido entre os gamers, mas que reflete possibilidades infinitas de construção e existência estabelecidas com a Internet. Mudanças externas na tecnologia e, porque não, internas no comportamento e mind set.

Esse novo ser humano que adora criaturas mágicas como o unicórnio, que possui avatar ao invés de fotos, e que aceita todas as cores do arco-íris na roupa, no cabelo, no gênero e na atitude, já nasceu conectado. Possui o conhecimento em um clique e vive no presente, no imediato, no conteúdo que expira em 24 horas. E isso não o faz mais fútil ou menos intenso. Inclusive, talvez por estar tão exposto desde o início ao todo, às nuvens digitais de coisas boas e ruins, seja um dos motivos para ele ser tão sensível. Afinal, não são necessárias horas de experiência para se captar uma mensagem, quando já se tem a velocidade no olhar.

“No meu tempo era diferente...”, “Isso é muito estranho”, “Quando ficarem mais velhos, vão valorizar mais as pessoas”, você pode dizer. Porém, antes de julgar a relação dos jovens com a tecnologia, é preciso observar as mudanças do mundo de agora e os nossos medos com o desconhecido. Para entender o que querem as novas gerações, torna-se fundamental um exercício constante, profundo e real de empatia, ao invés de posturas de distanciamento.

“Eu só via na internet coisas para homens ou héteros e eu não sei falar nada sobre isso. Então resolvi falar sobre o meu universo”, contou FOXY, no painel “Girls Just Wanna Make Funny”, com meninas incentivando os jovens a respeitar a sua verdade, em um espaço digital democrático – seja produzindo conteúdo ou assistindo pessoas que os inspirem. “Abrace a sua esquisitice”, disseram elas muitas vezes, entre gritos de fãs animados ao respeitar tal coragem e se reconhecer naquele discurso. Até porque neste “mundo aberto” de possibilidades, é valor que eles buscam – seja nos amigos, no trabalho que vão escolher, no produto que vão consumir ou na marca que vão seguir.

Por isso é importante perceber, ter e cobrar a responsabilidade de quem fala – seja pessoa física ou jurídica – em uma realidade onde um post ou vídeo compartilhado alcança milhões de views em minutos. Além de buscar também os benefícios dessa comunicação em escala, ao invés de apenas se aterrorizar com o copo vazio de ações prejudiciais. A terapeuta Esther Perel, por exemplo, citou uma vez, que ao viver em tribo, as pessoas aprendiam muito mais umas com as outras, pois ouviam as experiências da cabana ao lado: brigas, amores, conversas – e que estaríamos isolados dentro de nossos apartamentos. O que me remeteu diretamente aos jovens, que se conectam com vlogueiros, que expõem suas dores, inseguranças e histórias de vida – discursos que bem utilizados poderiam acelerar o aprendizado em saltos quânticos. Algo que só depende de nós.

Enfim, se as novas gerações aprenderam que é possível estar em todos lugares ao mesmo tempo, talvez os anos de vida e experiências passadas nos deixem cegos e presos ao mind set que o real só signifique físico. Na palestra das influenciadoras, por exemplo, uma das meninas da audiência sentada lá na frente poderia passar por desligada por estar olhando só para o celular. No entanto, estava mandando várias perguntas com hashtags, se revelando então muito empolgada quando enfim leram seu nome. Ou seja, o ponto aqui é que talvez estejamos presenciando uma nova forma de conexão.

Aprender a desaprender é o que mais exercitei na Vidcon deste ano  – entendendo que, como indústria, não existe caminho mais genuíno do que esse quando se pretende inovar. E me surpreendi com um dos paineis com quatro adolescentes sobre questões como fake news, hábitos de consumo, qualidade de conteúdo e outros temas frequentemente abordado por altos executivos. Um deles, em um dos momentos, por exemplo chama o Instagram de “copycat” em relação ao Snapchat e analisa com sabedoria a situação: “Essa competição entre as plataformas está sempre baseada em copiar o que o outro tem. Parecem crianças: eu tenho! Ah é? Eu também!”. E, como um consumidor experiente, entrega o que espera: “Gostaria de ver coisas novas”. Eu também.

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