Não existe mal-entendido

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Quando você trabalha ou mexe de alguma forma com comunicação, você deve saber uma coisa:

Comunicação não é o que você fala. É o que as pessoas entendem.

E outra coisa:

Não dá para se proteger pela aura de subjetividade que existe por trás do que a gente fala (a tal da licença poética) para ganhar tempo e dizer que as pessoas é que não entenderam nada do que você tentou dizer.

O que você fala ou escreve é isso aí que está falado ou escrito e pronto.

O que você faz é o que está feito e pronto.

Isso faz algum sentido para vocês?

Acho que sim... Se sim, siga em frente na leitura. Se não, já me mande uma mensagem dizendo que discorda, o porquê e podemos discutir sobre isso de forma inteligente e aberta.

Porque estou dizendo isso?

Porque a França jogou contra a Argentina pelas Oitavas-de-final da Copa do Mundo e o destaque do jogo foi o jogador Kylian Mbappé, que fez dois gols, jogou demais e, de quebra, impressionou o mundo com sua velocidade.

Eis que o mundo está de olho no jogo e no que se diz sobre o assunto e, aqui no Brasil, temos, entre jornalistas, publishers, creators, entusiastas e outros tipos de produtores de conteúdo, muitas personalidades com um certo destaque em determinados grupos sociais que se identificam com o que essas pessoas costumam falar e espalhar por aí.

Aí, temos o Cocielo (número 8, na imagem acima), um cara adulto com 16 milhões de assinantes no Youtube, 11 milhões de seguidores no Instagram, 7 milhões no Twitter e 2 milhões no Facebook.

Em tempo... Os números podem impressionar, mas calma...hoje em dia existem muitos produtores de conteúdo com números parecidos e até maiores do que esses nesses canais, o que evidencia o volume absurdo de conteúdo (estou chamando qualquer bobagem de conteúdo aqui, ok) a que os 120 milhões de brasileiros estão expostos todos os dias.

De qualquer forma, ele tem certa relevância e, por isso, algumas grandes marcas gastam (e a palavra é “gastar” mesmo) muito dinheiro pagando para ele falar sobre elas, mencionar seus nomes, mostrar seus produtos, etc.

Um jovem falando o que quer para quem quer ouvir, com alguma audiência e marcas o abastecendo de dinheiro e produtos, ganha um espectro de importância que é até questionável, mas também o torna um potencial influenciador para um grupo de pessoas que passa a admirá-lo, naturalmente.

Entendeu o cenário?

Um catalizador de audiência, que, pela empatia desenvolvida junto ao “seu público”, tem força para disseminar certos pensamentos, sejam eles diretos (racionais, críticos, claros, objetivos) ou indiretos (subjetivos, subliminares, etc).

Esse mesmo cara, Cocielo, assiste ao jogo da França contra a Argentina e, ao notar a altíssima velocidade do jogador Mbappé (negro, é importante dizer), faz um post dizendo que o jogador, por sua velocidade, poderia fazer arrastões com sucesso no Rio de Janeiro.

Você viu o post dele?

Agora, imagine se Mbappé fosse um jogador branco, descendente de Dinamarqueses, alto, de olhos claros e bem veloz.
Você acha que a piada com a velocidade dele seria a mesma, sobre fazer arrastões?
Eu acho que não...e acho que você concorda comigo.
Sabe porque? Porque é uma piada de cunho racista.
Não...imagina...pode ser racial, mas não racista.
Racial, amigo, é atribuir uma habilidade ou hábito à uma característica comum a determinada raça. É estereotipado, escroto, idiota, babaca, mas não é racista.

“Por ele ser negro, deve sambar muito bem”
“Ele tem essa malemolência típica dos negros”
“Ele tem cabelo crespo, como um cara negro”
Entre outras afirmações que você ouviria mais frequentemente na boca de Ana Maria Braga e das pessoas do mesmo século dela.
Quando você atribui hábitos ou práticas delinquentes, negativas ou depreciativas à uma determinada raça, você está sendo racista. Simples assim.

Mas, você acha que o Cocielo odeia os negros e quer o "extermínio" da raça?
Bem, filho...apesar dele já ter postado que sim, defende essa ideia (vide imagens abaixo), eu não acho que ele seja esse "Careca do ABC" todo não...não mesmo.

Em geral, na minha opinião, racismo se desdobra por dois fatores: Ódio e Cultura

No racismo de Ódio, a pessoa quer o extermínio do negro, o vê como ameaça, apesar de supor todo tipo de inferioridade só pelo fato dele ter pele preta e traços marcantes de sua raça no seu corpo, especialmente no rosto e no cabelo.

No racismo cultural, você “apenas” cresce aprendendo com sua família e seu entorno social que negros são inferiores e, naturalmente, merecem um grau de desprezo, deboche, distância social, antipatia, etc, etc, etc.

É aqui que ele se encaixa. No racismo Cultural, que não é menos ofensivo...só é construído de forma diferente da outra que mencionei.

Igual a ele tem milhões de pessoas por aí (e algumas lendo esse artigo, inclusive).

Mas, quando ele tem o "microfone" que tem nas mãos, o poder de influência que lhe é atribuído e a exposição comercial junto à marcas fortíssimas como é o caso, você tem uma base de fomento ao pensamento racista de forma mais consistente e programática, o que justamente o mundo de hoje combate a todo custo, comemorando cada pequena vitória que conquista nessa luta eterna.

Você entendeu?

Entende que não existe essa de mal-entendido?
Entende que o ofensor não pode escolher quando ofendeu?
Entendeu quem é o Cocielo e o que é esse tal de Digital Influencer?
Entendeu o que ele fez e o peso que isso tem? Que não tem inocência aí?
Entende que isso é propaganda do pensamento racista?
Você acha que as marcas devem continuar patrocinando um cara desse?

O cara é racista, aprendeu e cultua valores racistas.

Convive com negros? Abraça crianças negras? Abraça a empregada e o cara que cuida dos seus cavalos? Sim...mas ele é racista.

Mas ele é tão legal.
Mas ele é divertidao.
Mas ele é novo, um menino ainda.
Mas ele é famoso, tem uma carreira.
Mas não estamos exagerando com esse caso?
Mas ele tava só brincando, foi uma piada, não fez por mal.
Mas é muito vitimismo, mimim, não pode mais falar nada, fazer nada.
Ele é racista e, quando tem oportunidade, mostra que é racista, usou sua força de comunicação para espalhar o pensamento racista.

O mundo está cheio de maridos dedicados que batem vez ou outra em suas mulheres. O mundo está cheio de bons meninos, que uma vez ou outra cometem bullying com alguém que depois se mata. O mundo está cheio de médicos que abusam vez ou outra de uma paciente aqui ou ali. O mundo está cheio de gente bem-intencionada, que matou “sem querer” milhares de negros, judeus e latinos (só para citar alguns) apenas fazendo piadas. E o mundo, especialmente o lado preto do mundo, está cheio desses idiotas que gostam de rimar racismo com vitimismo.

Escrever um artigo sobre isso, pensar, argumentar, trazer o assunto para a mesa, etc não é vitimismo. É resistência.

Eu sou Gestor de Mídia & Data Intelligence e, entre outras coisas, escrevo sobre mídia, sobre negócios, etc, mas, para o meu mercado de atuação, especificamente, se precisar, me posiciono sobre alguns pontos que podem fugir um pouco desses temas.

Só para deixar claro, eu sou escuro. Trabalho tanto quanto ou mais do que qualquer um na minha área, sou tão bom no que eu faço quanto qualquer um poderia ser, tenho amigos, colegas, conhecidos, convivo com o meu meio e não fico levantando bandeiras o tempo todo. Mas, acreditem, eu sei o que acontece, tenho bons olhos e ouvidos, sei onde piso.

Segue o jogo.

Nino da Silva - Gestor de Mídia & Data Intelligence

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